quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Superar

Série "Poesias e Devaneios", Nº 42


Superar não significa esquecer, assim como perdoar não é voltar a querer.

Superei, mas nunca esqueci, e nem pretendo,
Preciso das memórias para não esquecer onde não devo permanecer,

E não se trata de rancor,
Minha vida não tem espaço pra isso
É uma questão de amor,
De amor próprio,

Porque é preciso lembrar,
Pra não voltar a errar
Pra aprender que nem toda promessa é verdade,
Assim como nem toda lágrima é saudade,

E as minhas tem gosto de superação,
Já não doem mais,
O perdão foi a alforria do meu coração,
Apagou os últimos traços,

Desfez todos os laços,
Abraçou o presente,
Fez brotar a semente em meio uma desilusão
Porque perdoar é acreditar,  Que apesar dos pesares,

Novos tempos virão,
E onde existia passado, 
Desabrochará a renovação. 


Por Ricardo A. Brant, em Março de 2017

"E o futuro vai ser tão brilhante, que nem vamos precisar de olhos para ver..."

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O Lar que Jamais Tive

Série "Poesias e Devaneios", Nº 41


Que nessa terra que habito
Que nesse canto que resido
Habitável? talvez não...
De qual não houve recepção

Que estou e vou estando
Terra vil e céu em desando
Sem flores no seco pasto
Idiotices de um sonho fasto

Não me permito condescendência
Que de face minha verta
Lágrimas crus da indulgência

Terra que não ama
Lar que não acolhe
Lugar que não sou parte

Não há temor
Não há rancor
Não há amor 
Só resta aqui torpor

Não ficarei, em paz jamais
De mim pedir, paciência é demais
Pois onde há, suposto calor
Par de olhos, brilhante, torpor

Não é real, nunca será
Porque onde de fato está
Não será hoje nem aqui
Mas irei lá buscar

Onde pelos seus olhos serei devotado
E por seu coração perseverante
Pois daqui irei zarpar
E do seu coração, jamais abandonar

"Algum lugar onde não há tempo pra perder
Algum mundo onde mentiras valem mais que a verdade
Um espaço vazio em seu coração"






segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A importância do Perdão

Série "Reflexões Pessoais", Nº 32


Muitas vezes tentamos entender e colocar um sentido em situações e momentos pelos quais passamos.

Nos sentimos enganados, ludibriados, frustrados, odiosos, com raiva e com desejos de vingança, ao descobrirmos certas “verdades”.

Todos fomos machucados na vida. Todos fomos rejeitados por uma namorada (ou namorado), traídos por um amigo, passados para trás numa promoção, rejeitados pelos pais, ou vítimas de preconceito.

E acho que é natural sentir este tipo de coisa. É claro que com o tempo, a tendência é com o decorrer das nossas vidas e nosso amadurecimento natural, ir se desapegando e seguindo sua vida, se desenvolvendo, evoluindo, deixando estes sentimentos pra trás, e olhando sempre para frente.

Mas muitos ainda, por mais que não digam ou que não afirmem isso (nem pra eles mesmos), bem lá no fundo, ficam presos ao sentimento de revanchismo, vingança a quem os iludiu, enganou, traiu. Seja quem for, a maioria de nós acredita que as pessoas que nos feriram devem pagar pela dor que nos causaram; afinal, elas merecem ser castigadas, mesmo que inconscientemente (“nada como um dia atrás do outro”, ou “o mundo dá voltas”).

Mas simplesmente: perdoe! Não se trata de esquecer a maldade alheia ou minimizar o próprio sofrimento. Para ser capaz de um perdão verdadeiro e sadio basta entender que ele traz muito mais benefícios do que o rancor.

Infelizmente, o conceito de perdão de cada um pode limitar ou dificultar a capacidade de perdoar. Dizem que perdoar é coisa de gente fraca, medrosa, sem auto estima. Possuímos crenças negativas de que perdoar é aceitar de forma passiva tudo o que nos fizeram. Achamos que perdoar é aceitar agressões, desrespeito aos nossos direitos. Alguns afirmam: “eu não levo desaforo para casa!…” ou tipo “Que se foda! Sou assim mesmo!” Pergunto: Somos alguns destes? Devemos agir sempre assim? Será que a pessoa que perdoa demonstra fraqueza de caráter? NÃO, NÃO E NÃO!

Olhando somente para o escopo do tema Relacionamento:

Muitos dizem: “Ah, eu me dei muito mal com aquela pessoa”. É claro! E não foi por causa de nenhum tipo de “predestinação” ou algo que o valha. Porque se iludiram, pensaram que ela seria perfeita o tempo todo.

E então muitos dizem que não conseguem perdoar porque estão muito magoados. Porém, o problema não está no outro, pois era previsível que por mais especial que esta pessoa fosse, um dia acabaria agindo de forma diferente daquela que esperávamos. O erro está em nós, que não aceitamos as pessoas como elas são. Ainda mais nos dias de hoje, onde pode tudo!

Pergunto: Será que estamos aceitando as pessoas como elas são? Será que não estamos esperando muito dos outros? Será que estamos esperando lidar com seres utópicos e absolutamente altruístas? Sabemos que de angelicais e puros eles não tem nada, são humanos tanto quantos nós. Amigo, sem Aceitação, não há Perdão!

Um outro motivo para esquecermos as ofensas está na constatação de que o perdão traz um grande alívio para quem perdoa. Não é para quem é perdoado. Muitas vezes quem é perdoado não consegue se livrar da sua consciência, mas este também precisa aprender a se perdoar e a recomeçar novamente. O auto perdão também é importante. Para que reconhecendo os nossos erros encontremos forças para reformular nossas atitudes e começar uma nova vida.

Considerando a própria fragilidade, o indivíduo deve conceder-se a oportunidade de reparar os males praticados, reabilitando-se perante si mesmo e perante aqueles a quem haja prejudicado. O arrependimento, puro e simples, se não acompanhado da ação reparadora, é tão inócuo e prejudicial quanto a falta dele.

Perdoe a si mesmo pelos erros cometidos no passado e não fique se martirizando por isso. O auto perdão ajuda o amadurecimento moral, emocional, porque propicia clara visão responsabilidade, levando o indivíduo a cuidadosas reflexões, antes de tomar atitudes agressivas ou negligentes, precipitadas ou contraditórias no futuro.
Quando alguém se perdoa, aprende também a desculpar, oferecendo a mesma oportunidade ao seu próximo.

“O PERDÃO É SEMPRE PARA QUEM PERDOA”.

Não nos contaminemos pela raiva, pela cólera e pela mágoa. Vivamos em paz e com a nossa consciência tranquila pronta para merecer o perdão das pessoas que prejudicamos com os nossos atos, palavras e pensamentos, pois somente será perdoado aquele que perdoa. Essa é a lei.

Quando digo perdoar a pessoa que te prejudicou, não quero dizer que as coisas vão ser igual ao que era antes, que você vai ter que conviver com a pessoa, ou se relacionar com ela. Não, não e não. Você apenas aceita que a pessoa agiu daquela forma e que ela é assim e de certa forma você se protege e começa a andar pra frente rumo ao seu desenvolvimento e sua paz de espírito.

Quando perdoamos as pessoas que nos machucaram, não estamos dizendo que o que foi feito contra nós não teve importância (“não foi nada”) ou não deixou marcas profundas (aquelas a ferro e fogo). Essas perdas foram terríveis e fizeram grande diferença em nossa vida, mas nos ensinaram muitas coisas: tanto a não nos tornarmos vítimas novamente, como não fazermos o mesmo para terceiros e o principal, traz pra nós o aprendizado.

PERDOAR NÃO É ESQUECER. É LEMBRAR SEM SENTIR DOR. É NÃO LEVAR EM CONTA.

O sensato perdoa. Portanto, seja o que for e a quem for.

O perdão beneficia aquele que perdoa, por propiciar-lhe paz espiritual, equilíbrio emocional e lucidez mental na busca no auto-conhecimento.

Não perdoar nos dá a ilusão de força, de poder (“agora eu controlo”). Não perdoar ajuda a compensar a sensação de falta de poder que nós sentimos quando fomos machucados.
De fato, se trancarmos na prisão de nossa mente essas pessoas que nos prejudicaram, vamos nos sentir onipotentes (“agora é minha vez”) pela força do nosso ódio silencioso. Isso não é bom.

E, por último, não perdoar nos dá a ilusão de que não seremos machucados outra vez. Mantendo a dor viva, os olhos bem abertos para qualquer perigo em potencial, reduzimos o risco de voltamos a sofrer rejeição, traição ou qualquer outra forma de ferimento.
Mas será que os benefícios (iludidos) de não perdoar valem o preço que pagamos por armazenar essas mágoas, remoer esses sentimentos e nos agarrarmos com unhas e dentes à dor do passado? Será que vale a pena continuarmos alimentando a raiva, revidando com palavras ou com silêncio e assim nunca sentirmos o verdadeiro prazer de viver? Vale a pena corroer a alma dessa forma?

Claro que não! Simplesmente desapegue-se do passado e seja uma pessoa melhor pra você mesmo!!

O perdão se torna uma possibilidade quando a dor do passado cessa de reger nossas vidas; quando não precisarmos mais do ódio e do ressentimento como desculpas para obter menos da vida, do que queremos ou merecemos. Perdoar é chegar à conclusão de que já odiamos bastante e não queremos odiar mais; portanto, perdoar é usar a energia da vida, não para reprimir esses sentimentos, mas para quebrar o ciclo da dor se voltando para o futuro e não machucando outras pessoas como fomos machucados.

Há quem diga que perdoar é escolher entre se vingar e se aproximar, entre ser vítima ou sobrevivente. Na realidade, perdoar é um processo que vem de dentro. É uma libertação. Uma aceitação. Perdoar é aceitar que a coisas ruins podem e de fato acontecerem na vida das pessoas, e que as pessoas mesmo quando se envolvem, machucam e se machucam. Perdoar é um sentimento de bem-estar, é reconhecer que existe algo melhor que queremos fazer com a energia da vida e fazê-lo.


E creio que todos nós aqui somos sobreviventes rumo a um futuro de muitas batalhas, na busca de sermos melhores seres humanos.

"A raiva te torna menor, enquanto o perdão te força a crescer além do que você era."
Cherie Carter-Scott

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Uma História do Meu Tempo de Estudante de Direito Sobre o Casamento Gay e a Atual Promoção da Pedofilia Pelo Banco Santander.

Série "Reflexões Pessoais", Nº 31


Há quatro anos eu ainda não tinha concluído o meu curso de Direito, quando, durante uma pesquisa do professor, fui perguntado em sala de aula se era a favor do casamento gay. Prontamente respondi que não, pois o casamento é oriundo do instituto do direito romano chamado matrimonium e, como o próprio nome demonstra inquestionavelmente, está íntima e inseparavelmente ligado à maternidade. Logo, só existe casamento entre homem e mulher, pois apenas esta união tem a potência para gerar prole. E a prole, por sua vez, tem uma importância crucial para qualquer sociedade, qual seja, a manutenção do contingente humano sem o qual a nação, que em um país sadio é uma espécie de extensão da família, entra em decadência e, até mesmo, risco de extinguir-se.
Como é possível perceber, a minha resposta foi focada apenas no direito e na importância do casamento para o Estado. Tal fato se deve à minha vã tentativa de utilizar uma argumentação que tinha por escopo ser aceita no meio hostil onde eu, cristão e conservador, me encontrava. Fracassei totalmente e, em um piscar de olhos, várias vozes se levantaram em alto tom para me acusar de homofobia. Como não me deixo intimidar, dei um tapa violento contra a mesa, o que deu início a um silêncio sepulcral em sala, e falei: só respondi o que me foi perguntado. Nunca hostilizei ninguém por causa de sua opção sexual. Se simplesmente ser contra o casamento gay é ser homofônico, então eu aceito o rótulo. Agora, negar a própria realidade em favor de uma conveniência do politicamente correto é uma completa loucura que, após ser aprovada, atrairá ainda mais demência. Hoje se defende o casamento gay, amanhã o próximo passo será a pedofilia.
Depois do ocorrido, vários colegas me procuraram para parabenizar por terem se sentido representados pelo que dissera. Alguns outros, porém, afirmaram que tinha exagerado muito em minha afirmativa sobre pedofilia. Hoje, tão pouco tempo depois, a minha previsão se cumpriu: o Banco Santander financiou uma exposição criminosa por vilipendiar objeto de culto (escreveu as palavras vagina e língua em hóstias católicas, pintaram Jesus crucificado repleto de braços e, em cada um, segurando objetos como, por exemplo, um vibrador) e que incentiva não apenas a pedofilia como a zoofilia. É claro que qualquer cristão que saiba disso, bem como qualquer indivíduo que sabe a diferença entre coisas básicas como certo e errado, o bem e o mal, deve cancelar a conta no Satã-der e divulgar tal informação para que outras pessoas façam o mesmo. Seguindo o raciocínio, tamanho ultraje é o começo do preço altíssimo a se pagar pelo sacrifício da lógica no altar da conveniente omissão. Se as pessoas mentalmente sadias, que ainda são a maioria, não tolerassem que a realidade fosse substituída por ideologias das minorias barulhentas, com certeza a consequente insanidade coletiva decorrente da perda das bases morais mais caras não estaria acontecendo hoje. Já falei exaustivamente, mas repito: é no solo fértil da covarde indiferença o local onde o mal é semeado e gera prolífera colheita.
Portanto, a sociedade brasileira tem que romper imediatamente com o expediente do silencio. Para ser mais claro, todo aquele que tentar negar a realidade deve ser prontamente repreendido e chamado pelo que é, um louco. Não toleremos o desrespeito à fé do povo brasileiro; a caça sexual predatória dos seres mais indefesos, as crianças; o hedonismo animalesco da zoofilia; mais uma ideologia maldita, dessa vez para dizer que crianças nascem sem gênero definido, ignorando desde o mais pequenino cromossomo molecular até o mais gigante dos órgãos genitais; et cetera. Podem ter certeza, apesar de difícil, esta é uma causa nobre pela qual vale a pena lutar para fazer a diferença ou, no mínimo, morrer tentando.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Você está acordado?

Série "Reflexões Pessoais", Nº 30


A mente humana possui diversos mecanismos vitais para a sobrevivência humana e o principal deles é o poder de abstração. Abstrair a nossa realidade é a programação natural que nos foi feita assim que nascemos e começamos a interpretar o mundo a nossa volta. Nosso cérebro foi moldado durante anos de evolução, entretanto isso não significa que estejamos livres de um grande defeito: viver no modo automático. 

A principal causa desse modo é não viver no presente, sempre pensando no passado e no futuro. Vivemos mortos em uma sociedade onde o fluxo de informação é tanto que o processamento não consegue ser totalmente consciente, lidamos de maneira automática durante a maior parte do processo.

Experimente se lembrar do que você comeu três dias atrás no almoço. Se não houver recordação sobre isso provavelmente você não estava lá, fazemos isso o tempo todo, estamos dormindo o tempo inteiro. 

A consciência nos foi tomada, após ondas e mais ondas de informação a fadiga mental é tanta que entrar em modo automático é questão de sobrevivência e manutenção da espécie, assim como viver no presente era primordial para os nossos ancestrais continuarem vivendo. 

Nossos antepassados tinham que viver um momento de cada vez se quisessem se manter vivos, pois não havia nenhuma outra forma de se proteger a não ser observar a realidade nua e crua, sem nenhum tipo de distorção. Hoje as necessidades mudaram, se passarmos a viver no presente e questionarmos o porque das nossas ações e atitudes a civilização não duraria sequer mais um dia, pois nada do que fazemos faz realmente algum sentido no presente. 

A sociedade está doente, vivemos por promessas de um futuro que nem sequer existe e por um passado que não pode ser alterado. Tomamos atitudes baseados em um amanhã que talvez nunca chegue e achamos isso perfeitamente racional e razoável, afinal todos fazem o mesmo. Jogamos o nosso individualismo em troca de um coletivo que sobrevive a cada dia por uma mera questão de formalidade e costume em seguir vivendo uma vida que nem sequer é sua, pois você não vive de corpo e alma cada momento.

É preciso admitir que falta vontade para viver. O corajoso é aquele que mesmo com medo enfrenta o problema. O medroso é tal qual como o corajoso, pois ambos possuem medo. O destemido é aquele que entendeu que o medo só prejudica a experiência e resolveu se abnegar, entendeu que o caminho do não ser é a melhor forma de se chegar ao objetivo, pois não sendo pode-se ser qualquer coisa na hora certa.

E você? Até quando vai se entregar ao medo e deixar de viver no presente? Até quando a desculpa para o seu fracasso vai ser aquilo que já aconteceu e não pode ser alterado? Até quando a desculpa para o seu fracasso vai ser aquilo que nem sequer existe ainda?

Viva a vida em sua plenitude. Observe o mundo em sua volta ao menos uma vez e encante-se. Tenha consciência de cada ação e atitude do seu corpo, cada passo, cada respirar, cada batimento cardíaco pelo menos por alguns instantes. O presente é tudo que existe, se você não consegue viver nele você não está vivendo, está fugindo.

Será que suas escolhas de vida foram tão ruins que você não consegue encará-las de frente? Será que você tem que viver a vida inteira fugindo de você mesmo e do mundo, como se fosse um criminoso, um traidor de si mesmo?

A maior parte dos problemas da sua vida são resultantes da falta de atenção. Mas, como ter atenção se você nem sequer está aqui? Você sempre está lá, nunca aqui no presente, onde tudo acontece. 

Acorde!

Aquela mulher que te deu um pé na bunda nunca te quis, mas você estava tão distraído vivendo no passado ou no futuro que se esqueceu de observar o desprezo e o oportunismo no olhar dela. 

Aquele amigo traidor nunca se preocupou com você, mas você estava tão bêbado que não conseguia perceber.

Aquele concurso que parecia distante estava tão próximo, mas você resolveu jogar as suas prioridades no lixo em prol de algum pensamento inútil que invadiu a sua cabeça. 

No presente não há pensamento, há ação. A atenção para se manter no presente é tanta que a possibilidade de pensar nem sequer existe.

Até quando você vai ser vítima do seu pensamento? Até quando vai viver em um mundo de ilusões?


Se liberte!

"Povos livres, lembrai-vos desta máxima: A liberdade pode ser conquistada, mas nunca recuperada."
Jean-Jacques Rousseau

quarta-feira, 12 de julho de 2017

TERRIVELMENTE INOMINÁVEL - Reflexões sobre o assassinato do Cabo Marcos Marques da Silva

Série "Reflexões Pessoais", Nº 29


        Terrivelmente inominável. Estas foram as palavras que usei depois de assistir ao vídeo do bravo Cabo da Polícia Militar, Marcos Marques da Silva, tombando morto após ser assassinado a tiros por integrantes de uma quadrilha de assaltantes de banco que agiram em Santa Margarida-MG. Além dele os criminosos também mataram um vigilante do Banco do Brasil e fizeram dois reféns como escudo humano durante a fuga. Fato este que, muito provavelmente, levou o Cabo da PM a não atirar e, consequentemente, ser fatalmente atingido. 

          Talvez a ausência de palavras que me ocorreu para descrever a filmagem aterradora do PM desfalecido no chão enquanto o seu sangue - o preço mais alto da bravura - irrigava a terra, seja em decorrência do fato de que, assim como ele, também sou policial da mesma corporação e da mesma graduação. É inegável que o ocorrido causou profunda impressão em mim. Mas sei que a morte do Cabo Marcos é uma trágica oportunidade de ressaltar um pouco das muitas coisas que estão realmente indo muito errado em matéria de segurança pública no Brasil e uma forma de honrar o seu heroico sacrifício.

Tirar a vida do próximo por causa de dinheiro é uma conduta execrável de altíssima reprovabilidade social. Por isto crimes bárbaros como o ocorrido em Santa Margarida sempre foram, são e continuarão sendo capazes de fazer aflorar em meio à sociedade o natural desejo do sangue dos criminosos. Em tempos de outrora seria aberta uma verdadeira temporada de caça aos malfeitores que terminaria, caso algum deles fosse capturado vivo, em um pequeno espetáculo em praça pública de tortura até a morte. Apesar de nenhum indivíduo normal desejar o retorno dos shows de flagelo, com certeza grande parte da população de bem deseja de maneira correta e ponderada que bandidos perigosos tenham prêmios postos pelas suas cabeças e que possam ser condenados, após um julgamento justo, à pena de morte.

Isso não é uma questão de vingança, mas sim de justiça. Afinal é injusto que a coletividade seja exposta ao risco de conviver, por exemplo, com um assassino frio que já matou por motivos torpes, somente porque a escória intelectual empossada acredita na recuperação e reinserção de qualquer tipo de criminoso em meio à sociedade. Hodiernamente muitos são os que procuram, por intermédio do direito, humanizar facínoras que fazem as vezes dos vermes, se alimentando da carne dos seus semelhantes (até mesmo de forma literal). Chamar isto de direitos humanos é um expediente que jamais será aceito pela população de bem, simplesmente porque é desumano e contrário a própria lógica da realidade.

Não há palavras capazes de defender o indefensável. Todavia, a tentativa insana de fazê-lo faz emergir uma legítima indignação muito maior do que qualquer crime bárbaro pode provocar. Pois a maldade é algo que está presente ao perpassar de toda história humana. A defesa do mal, contudo, é uma deformação monstruosa, um corpo extravagante capaz de fazer multiplicar o abscesso da perversidade e, inclusive, esta realidade fica ainda mais clara ao ouvir-se o áudio do companheiro do Cabo Marcos afirmando que ele está deixando para trás a sua família e que só não efetuou o disparo por medo de ser punido. Em suas próprias palavras: “a gente (policiais) é tão cobrado, é tão massacrado, que o cara de medo não pode agir”.

Definitivamente, a arma do policial está pesada demais. Qualquer soldado que vai para a guerra pensando em problematizações maiores do que a vida e a morte, que tenha que se preocupar com a manutenção do emprego que provém o sustento da sua família ou, até mesmo, na manutenção da própria liberdade, está fadado à hesitação. E na guerra quem hesita, morre! Não adianta virem com relativismos eufemistas: “o policial não deve matar o inimigo, mas sim prender o infrator”, pois qualquer pessoa mentalmente sã sabe que existe uma abissal distância que separa o criminoso comum dos quadrilheiros muito bem armados e mortalmente dispostos à prática da pilhagem.

A pior implicação do politicamente correto é que ele impede que as coisas sejam adjetivadas pelo que elas realmente são. Se não há diferenciação entre inimigo e criminoso comum, o tratamento para aquele passa a ser o mesmo dispensado para este. Invariavelmente o resultado será a guerra assimétrica, com um lado tendo total liberdade de ação, enquanto o outro, neste caso à polícia, está restrito as amplas amarras jurídicas, sociais, corporativas e psicológicas. Não se trata de aumentar-se a pena categorizando as ações de inimigos da sociedade – que nem os que assassinaram o Cabo Marcos – como crimes hediondos, mas sim de se estabelecer uma verdadeira licença para matar. O policial deve ter total liberdade para eliminar toda e qualquer pessoa que esteja agindo com ânimo mortal, pois é no mínimo imoral exigir-se que um agente da lei não aproveite uma janela de oportunidade para alvejar pelas costas um criminoso que leva o caos com armas em punho, apenas porque alguns aloprados podem argumentar juridicamente que isto não seria caso de legítima defesa.

E engana-se grandiosamente quem pensa que os argumentos que tracei até aqui podem servir para o radicalismo, já que existe um exemplo notório de país mais desenvolvido, com qualidade de vida muito superior ante a do Brasil e que foi fundado através do segundo grande momento histórico dos direitos humanos: a Constituição dos Estados Unidos de 1787. E, mesmo assim, na América é permitida a legítima defesa da propriedade, policial é herói, senta o dedo na bandidagem, os piores destes têm a cabeça posta à prêmio e existe prisão perpétua e pena de morte em diversos Estados. É realmente uma pena que em algum momento ao decorrer da história, os ideólogos do mal tenham tomado de assalto os direitos humanos e os transmutado na defesa intransigente de todo o tipo de absurdidades. Entre elas, a ideia irracional de que o criminoso é um coitado que não teve educação e oportunidades financeiras. Como se ser bandoleiro fosse coisa de gente pobre. Ideia esta que, per se, é um tremendo desaforo contra cada pobre honesto e de vergonha na cara.

Outro problema gravíssimo é a labiríntica e engessadora burocracia que faz com que a polícia tenha gigantesca dificuldade de adquirir armas de fogo de calibre mais pesado. A origem deste grave problema não veio do Regime Militar, mas sim das mãos do verdadeiro ditador brasileiro, Getúlio Vargas. Sobre este ponto específico segue o enxerto do livro Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento, de Flávio Quintela e do sempre pertinente Bené Barbosa:

Getúlio Vargas ainda enfrentaria mais uma situação de confronto bélico, na revolução de 1932. Mas desta vez seria contra o estado mais rico da federação, São Paulo, que contava com uma força policial equipada com fuzis Mauser, metralhadoras Madsen, carros de combate, canhões e até mesmo alguns aviões de guerra. Além da Força Pública do Estado de São Paulo, os paulistas contavam com todas as organizações militares do exército brasileiro sediadas em seu estado, e com a ajuda de milhares de voluntários, que levaram suas próprias armas para o campo de batalha. Depois de 87 dias de duros combates, o governo de Vargas conseguiu vencer a guerra paulista, encerrando assim o último conflito armado ocorrido em território brasileiro. Mas a mensagem que ficou é muito clara: os paulistas não teriam sequer ousado levantar-se contra a ditadura de Vargas sem o armamento que tinham. Pouco tempo depois, em 6 de julho de 1934, o governo baixou o Decreto 24.602, criando as restrições de calibres e de armamentos, tanto para os cidadãos civis como para as polícias. É por conseqüência desse decreto que as polícias estaduais necessitam hoje da permissão do exército para comprar fuzis e armas de maior calibre, e freqüentemente combatem os criminosos com equipamento inferior em poder de fogo. No Brasil de hoje os criminosos não têm medo da população – que não possui armas – e não têm medo da polícia – que possui armas inferiores. Tal legislação, atualizada e ampliada, encontra-se até hoje em vigor e é conhecida por atiradores esportivos e colecionares de armas por “R-105”. Deve-se dizer que, dentre os países democráticos, o Brasil é provavelmente o único onde a fiscalização e regulamentação do Tiro Esportivo e do Colecionismo de Armas são feitas pelo Exército."

               Por último, mas não menos importante, é necessário lembrar de duas célebres frases históricas, uma atribuída ao reverendo Martin Luther King e a outra do ativista dos direitos humanos (os verdadeiros), Victor Hugo, respectivamente: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons” e “Quem poupa o lobo sacrifica as ovelhas”. A sapiência destas afirmativas ensina que todo aquele que se silencia diante da injustiça, com ela compactua. Por mais que seja abjeto que os maus façam maldades e que malditos pervertidos tentem defender o indefensável, não há nada capaz de causar mais asco do que ver uma pessoa boa se calar no momento em que ela deveria estar esbravejando, pois é a inação o que desequilibra a balança do destino fazendo com que o progresso da malignidade seja tão perceptível ao ponto de quase poder ser tocado. Portanto, que as vozes do bem se façam ouvir em alto e bom som para que o sacrifício do Cabo Marcos, herói tombado, seja um marco de sanidade e um verdadeiro ponto de inflexão para livrar o Brasil da letargia diante das mais de 70.000 mortes anuais que clamam aos céus por justiça!



sábado, 17 de junho de 2017

Síndrome da Rainha Vermelha na Vida Pessoal

Série "Reflexões Pessoais", Nº 28


A "Síndrome da Rainha Vermelha" é um conceito, um postulado de sociologia, publicado na forma de livro de não-ficção pelo autor e sociólogo Marcos Rolim.

Todo o conceito da obra é pensado para ser trabalhado em cima da segurança pública brasileira e suas deficiências.

A ideia surge de uma passagem específica de personagens específicos da obra de Lewis Caroll, "Alice Através do Espelho". É sobre a frustrante sensação da personagem Alice de que quanto mais se corre, mais se fica no mesmo lugar:

"..."Vamos , Alice , corra, corra mais". Exausta com o esforço, ela se frustra quando percebe que não saiu do lugar. No mundo da Rainha Vermelha é assim mesmo. Corre-se mais e mais, para não sair do lugar. Alias, é preciso correr muito para ficar no mesmo lugar..."

Alias a metáfora que é o escopo do tema pode nos levar a refletir não só sobre a segurança pública, mas também sobre outros temas e aspectos.

Quantas vezes na vida nos pegamos sofrendo de tal Síndrome? Exatamente assim, correndo contra o tempo implacável para exatamente FICAR NO MESMO LUGAR? Somos frustrados com o bombardeamento pelas mídias diversas sobre a possibilidade de todo mundo ter "seu lugar ao Sol", como se o "sonho americano" fosse extensível para nós aqui também nas terras verde-amarelas. 

Crescemos e amadurecemos em uma bolha social e filosófica onde nos é apregoado que com o simples esforço e um "querer" conseguiremos atingir nossos objetivos utópicos: sermos ricos, famosos, e até mesmo coisas que julgamos simples, como sermos reconhecidos e amados simplesmente pelo nosso caráter e nossa honra, e não simplesmente pelo que temos ou nossa aparência externa, cor da pele, etc.

É aí que chegamos ao ponto de perceber que estamos fazendo EXATAMENTE o que Alice fez: correndo, correndo, correndo e correndo com toda força para ficar no mesmo lugar: pagar nossas contas, acordar cedo, trabalhar em uma rotina monótona e angustiantemente previsível, sustentar ego e luxúria de uma sociedade pautada pela aparência e com uma profundidade tão "grande" quanto uma piscina infantil.

E como Alice, no livro de Lewis Caroll, nós mesmo acabamos se frustrando, e exaustos pelo esforço inutilmente desenvolvido, desistimos de tentar, de ser, de criar, e passamos apenas a existir, de forma vazia e automática, como uma legião de fantasmas, vivendo a vida no "modo automático".

E com o olhar vazio "das mil jardas": NASCEMOS COMO UM MORTO E MORREMOS COMO SE NUNCA TIVÉSSEMOS NASCIDO.

"...e quando a própria vida funciona como uma máquina de destruir sonhos e padronizar almas..."