quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Você está acordado?

Série "Reflexões Pessoais", Nº 30


A mente humana possui diversos mecanismos vitais para a sobrevivência humana e o principal deles é o poder de abstração. Abstrair a nossa realidade é a programação natural que nos foi feita assim que nascemos e começamos a interpretar o mundo a nossa volta. Nosso cérebro foi moldado durante anos de evolução, entretanto isso não significa que estejamos livres de um grande defeito: viver no modo automático. 

A principal causa desse modo é não viver no presente, sempre pensando no passado e no futuro. Vivemos mortos em uma sociedade onde o fluxo de informação é tanto que o processamento não consegue ser totalmente consciente, lidamos de maneira automática durante a maior parte do processo.

Experimente se lembrar do que você comeu três dias atrás no almoço. Se não houver recordação sobre isso provavelmente você não estava lá, fazemos isso o tempo todo, estamos dormindo o tempo inteiro. 

A consciência nos foi tomada, após ondas e mais ondas de informação a fadiga mental é tanta que entrar em modo automático é questão de sobrevivência e manutenção da espécie, assim como viver no presente era primordial para os nossos ancestrais continuarem vivendo. 

Nossos antepassados tinham que viver um momento de cada vez se quisessem se manter vivos, pois não havia nenhuma outra forma de se proteger a não ser observar a realidade nua e crua, sem nenhum tipo de distorção. Hoje as necessidades mudaram, se passarmos a viver no presente e questionarmos o porque das nossas ações e atitudes a civilização não duraria sequer mais um dia, pois nada do que fazemos faz realmente algum sentido no presente. 

A sociedade está doente, vivemos por promessas de um futuro que nem sequer existe e por um passado que não pode ser alterado. Tomamos atitudes baseados em um amanhã que talvez nunca chegue e achamos isso perfeitamente racional e razoável, afinal todos fazem o mesmo. Jogamos o nosso individualismo em troca de um coletivo que sobrevive a cada dia por uma mera questão de formalidade e costume em seguir vivendo uma vida que nem sequer é sua, pois você não vive de corpo e alma cada momento.

É preciso admitir que falta vontade para viver. O corajoso é aquele que mesmo com medo enfrenta o problema. O medroso é tal qual como o corajoso, pois ambos possuem medo. O destemido é aquele que entendeu que o medo só prejudica a experiência e resolveu se abnegar, entendeu que o caminho do não ser é a melhor forma de se chegar ao objetivo, pois não sendo pode-se ser qualquer coisa na hora certa.

E você? Até quando vai se entregar ao medo e deixar de viver no presente? Até quando a desculpa para o seu fracasso vai ser aquilo que já aconteceu e não pode ser alterado? Até quando a desculpa para o seu fracasso vai ser aquilo que nem sequer existe ainda?

Viva a vida em sua plenitude. Observe o mundo em sua volta ao menos uma vez e encante-se. Tenha consciência de cada ação e atitude do seu corpo, cada passo, cada respirar, cada batimento cardíaco pelo menos por alguns instantes. O presente é tudo que existe, se você não consegue viver nele você não está vivendo, está fugindo.

Será que suas escolhas de vida foram tão ruins que você não consegue encará-las de frente? Será que você tem que viver a vida inteira fugindo de você mesmo e do mundo, como se fosse um criminoso, um traidor de si mesmo?

A maior parte dos problemas da sua vida são resultantes da falta de atenção. Mas, como ter atenção se você nem sequer está aqui? Você sempre está lá, nunca aqui no presente, onde tudo acontece. 

Acorde!

Aquela mulher que te deu um pé na bunda nunca te quis, mas você estava tão distraído vivendo no passado ou no futuro que se esqueceu de observar o desprezo e o oportunismo no olhar dela. 

Aquele amigo traidor nunca se preocupou com você, mas você estava tão bêbado que não conseguia perceber.

Aquele concurso que parecia distante estava tão próximo, mas você resolveu jogar as suas prioridades no lixo em prol de algum pensamento inútil que invadiu a sua cabeça. 

No presente não há pensamento, há ação. A atenção para se manter no presente é tanta que a possibilidade de pensar nem sequer existe.

Até quando você vai ser vítima do seu pensamento? Até quando vai viver em um mundo de ilusões?


Se liberte!

"Povos livres, lembrai-vos desta máxima: A liberdade pode ser conquistada, mas nunca recuperada."
Jean-Jacques Rousseau

quarta-feira, 12 de julho de 2017

TERRIVELMENTE INOMINÁVEL - Reflexões sobre o assassinato do Cabo Marcos Marques da Silva

Série "Reflexões Pessoais", Nº 29


        Terrivelmente inominável. Estas foram as palavras que usei depois de assistir ao vídeo do bravo Cabo da Polícia Militar, Marcos Marques da Silva, tombando morto após ser assassinado a tiros por integrantes de uma quadrilha de assaltantes de banco que agiram em Santa Margarida-MG. Além dele os criminosos também mataram um vigilante do Banco do Brasil e fizeram dois reféns como escudo humano durante a fuga. Fato este que, muito provavelmente, levou o Cabo da PM a não atirar e, consequentemente, ser fatalmente atingido. 

          Talvez a ausência de palavras que me ocorreu para descrever a filmagem aterradora do PM desfalecido no chão enquanto o seu sangue - o preço mais alto da bravura - irrigava a terra, seja em decorrência do fato de que, assim como ele, também sou policial da mesma corporação e da mesma graduação. É inegável que o ocorrido causou profunda impressão em mim. Mas sei que a morte do Cabo Marcos é uma trágica oportunidade de ressaltar um pouco das muitas coisas que estão realmente indo muito errado em matéria de segurança pública no Brasil e uma forma de honrar o seu heroico sacrifício.

Tirar a vida do próximo por causa de dinheiro é uma conduta execrável de altíssima reprovabilidade social. Por isto crimes bárbaros como o ocorrido em Santa Margarida sempre foram, são e continuarão sendo capazes de fazer aflorar em meio à sociedade o natural desejo do sangue dos criminosos. Em tempos de outrora seria aberta uma verdadeira temporada de caça aos malfeitores que terminaria, caso algum deles fosse capturado vivo, em um pequeno espetáculo em praça pública de tortura até a morte. Apesar de nenhum indivíduo normal desejar o retorno dos shows de flagelo, com certeza grande parte da população de bem deseja de maneira correta e ponderada que bandidos perigosos tenham prêmios postos pelas suas cabeças e que possam ser condenados, após um julgamento justo, à pena de morte.

Isso não é uma questão de vingança, mas sim de justiça. Afinal é injusto que a coletividade seja exposta ao risco de conviver, por exemplo, com um assassino frio que já matou por motivos torpes, somente porque a escória intelectual empossada acredita na recuperação e reinserção de qualquer tipo de criminoso em meio à sociedade. Hodiernamente muitos são os que procuram, por intermédio do direito, humanizar facínoras que fazem as vezes dos vermes, se alimentando da carne dos seus semelhantes (até mesmo de forma literal). Chamar isto de direitos humanos é um expediente que jamais será aceito pela população de bem, simplesmente porque é desumano e contrário a própria lógica da realidade.

Não há palavras capazes de defender o indefensável. Todavia, a tentativa insana de fazê-lo faz emergir uma legítima indignação muito maior do que qualquer crime bárbaro pode provocar. Pois a maldade é algo que está presente ao perpassar de toda história humana. A defesa do mal, contudo, é uma deformação monstruosa, um corpo extravagante capaz de fazer multiplicar o abscesso da perversidade e, inclusive, esta realidade fica ainda mais clara ao ouvir-se o áudio do companheiro do Cabo Marcos afirmando que ele está deixando para trás a sua família e que só não efetuou o disparo por medo de ser punido. Em suas próprias palavras: “a gente (policiais) é tão cobrado, é tão massacrado, que o cara de medo não pode agir”.

Definitivamente, a arma do policial está pesada demais. Qualquer soldado que vai para a guerra pensando em problematizações maiores do que a vida e a morte, que tenha que se preocupar com a manutenção do emprego que provém o sustento da sua família ou, até mesmo, na manutenção da própria liberdade, está fadado à hesitação. E na guerra quem hesita, morre! Não adianta virem com relativismos eufemistas: “o policial não deve matar o inimigo, mas sim prender o infrator”, pois qualquer pessoa mentalmente sã sabe que existe uma abissal distância que separa o criminoso comum dos quadrilheiros muito bem armados e mortalmente dispostos à prática da pilhagem.

A pior implicação do politicamente correto é que ele impede que as coisas sejam adjetivadas pelo que elas realmente são. Se não há diferenciação entre inimigo e criminoso comum, o tratamento para aquele passa a ser o mesmo dispensado para este. Invariavelmente o resultado será a guerra assimétrica, com um lado tendo total liberdade de ação, enquanto o outro, neste caso à polícia, está restrito as amplas amarras jurídicas, sociais, corporativas e psicológicas. Não se trata de aumentar-se a pena categorizando as ações de inimigos da sociedade – que nem os que assassinaram o Cabo Marcos – como crimes hediondos, mas sim de se estabelecer uma verdadeira licença para matar. O policial deve ter total liberdade para eliminar toda e qualquer pessoa que esteja agindo com ânimo mortal, pois é no mínimo imoral exigir-se que um agente da lei não aproveite uma janela de oportunidade para alvejar pelas costas um criminoso que leva o caos com armas em punho, apenas porque alguns aloprados podem argumentar juridicamente que isto não seria caso de legítima defesa.

E engana-se grandiosamente quem pensa que os argumentos que tracei até aqui podem servir para o radicalismo, já que existe um exemplo notório de país mais desenvolvido, com qualidade de vida muito superior ante a do Brasil e que foi fundado através do segundo grande momento histórico dos direitos humanos: a Constituição dos Estados Unidos de 1787. E, mesmo assim, na América é permitida a legítima defesa da propriedade, policial é herói, senta o dedo na bandidagem, os piores destes têm a cabeça posta à prêmio e existe prisão perpétua e pena de morte em diversos Estados. É realmente uma pena que em algum momento ao decorrer da história, os ideólogos do mal tenham tomado de assalto os direitos humanos e os transmutado na defesa intransigente de todo o tipo de absurdidades. Entre elas, a ideia irracional de que o criminoso é um coitado que não teve educação e oportunidades financeiras. Como se ser bandoleiro fosse coisa de gente pobre. Ideia esta que, per se, é um tremendo desaforo contra cada pobre honesto e de vergonha na cara.

Outro problema gravíssimo é a labiríntica e engessadora burocracia que faz com que a polícia tenha gigantesca dificuldade de adquirir armas de fogo de calibre mais pesado. A origem deste grave problema não veio do Regime Militar, mas sim das mãos do verdadeiro ditador brasileiro, Getúlio Vargas. Sobre este ponto específico segue o enxerto do livro Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento, de Flávio Quintela e do sempre pertinente Bené Barbosa:

Getúlio Vargas ainda enfrentaria mais uma situação de confronto bélico, na revolução de 1932. Mas desta vez seria contra o estado mais rico da federação, São Paulo, que contava com uma força policial equipada com fuzis Mauser, metralhadoras Madsen, carros de combate, canhões e até mesmo alguns aviões de guerra. Além da Força Pública do Estado de São Paulo, os paulistas contavam com todas as organizações militares do exército brasileiro sediadas em seu estado, e com a ajuda de milhares de voluntários, que levaram suas próprias armas para o campo de batalha. Depois de 87 dias de duros combates, o governo de Vargas conseguiu vencer a guerra paulista, encerrando assim o último conflito armado ocorrido em território brasileiro. Mas a mensagem que ficou é muito clara: os paulistas não teriam sequer ousado levantar-se contra a ditadura de Vargas sem o armamento que tinham. Pouco tempo depois, em 6 de julho de 1934, o governo baixou o Decreto 24.602, criando as restrições de calibres e de armamentos, tanto para os cidadãos civis como para as polícias. É por conseqüência desse decreto que as polícias estaduais necessitam hoje da permissão do exército para comprar fuzis e armas de maior calibre, e freqüentemente combatem os criminosos com equipamento inferior em poder de fogo. No Brasil de hoje os criminosos não têm medo da população – que não possui armas – e não têm medo da polícia – que possui armas inferiores. Tal legislação, atualizada e ampliada, encontra-se até hoje em vigor e é conhecida por atiradores esportivos e colecionares de armas por “R-105”. Deve-se dizer que, dentre os países democráticos, o Brasil é provavelmente o único onde a fiscalização e regulamentação do Tiro Esportivo e do Colecionismo de Armas são feitas pelo Exército."

               Por último, mas não menos importante, é necessário lembrar de duas célebres frases históricas, uma atribuída ao reverendo Martin Luther King e a outra do ativista dos direitos humanos (os verdadeiros), Victor Hugo, respectivamente: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons” e “Quem poupa o lobo sacrifica as ovelhas”. A sapiência destas afirmativas ensina que todo aquele que se silencia diante da injustiça, com ela compactua. Por mais que seja abjeto que os maus façam maldades e que malditos pervertidos tentem defender o indefensável, não há nada capaz de causar mais asco do que ver uma pessoa boa se calar no momento em que ela deveria estar esbravejando, pois é a inação o que desequilibra a balança do destino fazendo com que o progresso da malignidade seja tão perceptível ao ponto de quase poder ser tocado. Portanto, que as vozes do bem se façam ouvir em alto e bom som para que o sacrifício do Cabo Marcos, herói tombado, seja um marco de sanidade e um verdadeiro ponto de inflexão para livrar o Brasil da letargia diante das mais de 70.000 mortes anuais que clamam aos céus por justiça!



sábado, 17 de junho de 2017

Síndrome da Rainha Vermelha na Vida Pessoal

Série "Reflexões Pessoais", Nº 28


A "Síndrome da Rainha Vermelha" é um conceito, um postulado de sociologia, publicado na forma de livro de não-ficção pelo autor e sociólogo Marcos Rolim.

Todo o conceito da obra é pensado para ser trabalhado em cima da segurança pública brasileira e suas deficiências.

A ideia surge de uma passagem específica de personagens específicos da obra de Lewis Caroll, "Alice Através do Espelho". É sobre a frustrante sensação da personagem Alice de que quanto mais se corre, mais se fica no mesmo lugar:

"..."Vamos , Alice , corra, corra mais". Exausta com o esforço, ela se frustra quando percebe que não saiu do lugar. No mundo da Rainha Vermelha é assim mesmo. Corre-se mais e mais, para não sair do lugar. Alias, é preciso correr muito para ficar no mesmo lugar..."

Alias a metáfora que é o escopo do tema pode nos levar a refletir não só sobre a segurança pública, mas também sobre outros temas e aspectos.

Quantas vezes na vida nos pegamos sofrendo de tal Síndrome? Exatamente assim, correndo contra o tempo implacável para exatamente FICAR NO MESMO LUGAR? Somos frustrados com o bombardeamento pelas mídias diversas sobre a possibilidade de todo mundo ter "seu lugar ao Sol", como se o "sonho americano" fosse extensível para nós aqui também nas terras verde-amarelas. 

Crescemos e amadurecemos em uma bolha social e filosófica onde nos é apregoado que com o simples esforço e um "querer" conseguiremos atingir nossos objetivos utópicos: sermos ricos, famosos, e até mesmo coisas que julgamos simples, como sermos reconhecidos e amados simplesmente pelo nosso caráter e nossa honra, e não simplesmente pelo que temos ou nossa aparência externa, cor da pele, etc.

É aí que chegamos ao ponto de perceber que estamos fazendo EXATAMENTE o que Alice fez: correndo, correndo, correndo e correndo com toda força para ficar no mesmo lugar: pagar nossas contas, acordar cedo, trabalhar em uma rotina monótona e angustiantemente previsível, sustentar ego e luxúria de uma sociedade pautada pela aparência e com uma profundidade tão "grande" quanto uma piscina infantil.

E como Alice, no livro de Lewis Caroll, nós mesmo acabamos se frustrando, e exaustos pelo esforço inutilmente desenvolvido, desistimos de tentar, de ser, de criar, e passamos apenas a existir, de forma vazia e automática, como uma legião de fantasmas, vivendo a vida no "modo automático".

E com o olhar vazio "das mil jardas": NASCEMOS COMO UM MORTO E MORREMOS COMO SE NUNCA TIVÉSSEMOS NASCIDO.

"...e quando a própria vida funciona como uma máquina de destruir sonhos e padronizar almas..."




segunda-feira, 12 de junho de 2017

Quatro lições para a Vida

Série "Reflexões Pessoais", Nº 27


            Por muitas vezes eu olho para certa pessoa muito próxima a mim, que goza do meu amor, e fico angustiado pela infelicidade que é a sua vida. Já tentei negar esta realidade como uma forma patética de ser poupado da dor. Mas a verdade é que ao fazer isto jogo fora toda a tremenda oportunidade que tenho de aprender com os seus erros e subtrair um bom juízo de valor para a minha própria vida. Como disse Victor Franklin a respeito de uma das principais perguntas da filosofia, qual é o sentido da vida: “encontrar um sentido no sofrimento é conformá-lo a um determinado fim, transformando uma situação adversa numa realização pessoal, fazendo de uma tragédia um triunfo pessoal. Mas para isto devendo saber aonde quer chegar”. Como já sei aonde quero chegar, reduzir a probabilidade terrível de terminar os meus dias em situação similar a dela, este texto é um rompimento pessoal com o expediente da negação e uma forma de compartilhar as quatro boas lições que aprendi.
Primeira lição: jamais deposite em um terceiro a responsabilidade pela sua felicidade. Seja ele o seu filho, seu cônjuge, seu ascendente ou qualquer outro. O maior responsável por você sempre será você mesmo e quem não ama primeiramente a si não tem os meios necessários para amar ninguém mais. Apesar de não existirem fórmulas infalíveis para se viver bem, diante do caráter altamente subjetivo deste propósito, existem maneiras bem notórias de seguir no caminho exatamente oposto. Colocar qualquer mortal que seja como o centro gravitacional da sua vida é uma delas.
Segunda lição: a maneira mais fácil de fracassar na vida é achar culpados para as coisas que não deram certo. Afinal é impossível ser bem sucedido sem promover o auto-aperfeiçoamento através da correção de atitudes e uma pessoa que sempre culpa os outros acabará por se condenar à estagnação por causa, justamente, dos seus erros terceirizados. É claro que seria de um materialismo abjeto relacionar o sucesso na vida à existência de posses e dinheiro, sendo muito mais eficiente averiguar a satisfação que cada pessoa tem para com a sua própria realidade. Por meio desta prática fica fácil perceber que, invariavelmente, as pessoas fracassadas costumam ter uma face carregada, triste e, por vezes, agressiva para com o mundo, pois este sempre terá errado para que ela permaneça isoladamente como única pessoa certa no universo, bem como trilhando o perigoso e contraproducente caminho da própria comiseração.
Terceira lição: nem todo mundo que te ajuda é seu amigo. Na vida existem algumas pessoas dispostas a ajudar o próximo não por benevolência, mas sim para cobrar a preço de ouro até o auxílio mais irrelevante que prestaram. Como um contrato assinado com o diabo, nada menos do que a própria alma dos seus auxiliados poderá satisfazê-las. Portanto, ao meu ver, só existem três condutas dignas a se fazer perante gente dessa laia: rezar para que Deus as ajude, denunciar categoricamente os seus próprios engodos e evitar, ao máximo, cair em suas chantagens. Nem que para isto o sujeito tenha que carregar pelo resto da vida o injusto epíteto de pessoa ingrata.

Quarta lição: existem pessoas que estão acima de qualquer ajuda. Elas, obstinadamente, vão escolher a opção errada todas as vezes e por mais que queiramos auxiliá-las continuarão prejudicando a si mesmas, como também aqueles que lhes são mais próximos. Se debruçar em demasia na tentativa de resgatá-las é como aproximar-se de um buraco negro pronto para sugar e destruir qualquer objeto que se aproxime do seu horizonte de eventos. Consequentemente a conduta razoável que deve ser tomada diante de tão capciosa situação é a de ajudar sem se comprometer. Abrace a sua cruz sem deixar que ela te mate, pois permitir que a pessoa que você ama destrua a sua vida é pura e simplesmente falta de amor próprio. Isto feriria frontalmente a primeira lição exposta neste texto. Uma das poucas causas pela qual realmente vale a pena morrer é a do Homem Perfeito que carregou A Cruz pela salvação de toda a humanidade.


                   
"Le Penseur" por Auguste Rodin

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Tolos que se julgam Sábios

Série "Reflexões Pessoais", Nº 26


Eis uma pergunta para aqueles que possuem o mínimo de consciência a respeito da lastimável conjuntura intelectual em que se encontra o povo brasileiro: Dentre vocês quem não conhece alguém que, assim como graúda parte da população tupiniquim, está envolto pela mais deprimente ignorância, porém que em determinado momento teve a necessidade de aprender algo específico e, ao fazê-lo, passou a sentir-se tão superior aos demais ao ponto de colocar a si mesmo em um pedestal de arrogância e julgar-se como modelo de elevado padrão para todos os outros?
Pois bem, infelizmente a mentalidade (ou mendacidade) acadêmica no Brasil é responsável por criar um dos ambientes que formam milhares de indivíduos aptos a se portar dessa maneira. São alunos que aviltam o conhecimento ao utilizá-lo como mero meio para conseguir um fim como, por exemplo, quando desejam apenas ganhar um título que lhes possibilite prestar um concurso público (eles simplesmente ignoram o fato de que o conhecimento, per se, já deve ser o mais nobre fim para quem o estuda). Então, após realizar as suas efêmeras intenções, colocam-se como suprassumos de suas respectivas sociedades. Em síntese, pelo conhecimento meramente específico que possuem em relação aos demais populares de seus convívios julgam-se, pateticamente, superiores em todos os sentidos reais e hipotéticos. Apesar disso a grande maioria dessas pessoas costumam ser taxadas como arrogantes pelos demais, mantendo, deste modo, os seus imaginados prestígios apenas para a esfera das suas próprias imaginações.
Dos vários indivíduos com este tipo deplorável de comportamento, pouquíssimos se tornam proeminentes nas suas respectivas áreas do saber. Sujeitos diferenciados como esses não demoram a se destacar na sociedade e a serem envoltos por ignaros bajuladores que os ajudam a desenvolver uma certa quiromania narcisista entorno dos seus respectivos atributos. Estes, assim como o tipo que descrevi no parágrafo anterior, também se enxergam como modelo para sociedade, porém existem três substanciais aspectos que os diferem. Primeiro: eles são melhores naquilo que se propuseram a fazer. Segundo: em decorrência disso pensam, de maneira flagrante, que podem ou devem opinar em todos os tipos de assuntos, mesmo aqueles que fogem claramente as suas limitadas esferas de conhecimento. Terceiro: infelizmente eles costumam ser levados muito a sério pelas demais pessoas por estas não possuírem percepção suficiente para notar certos erros afirmativos que os denunciam (como a contradição), bem como por não possuírem parâmetros comparativos diretos e interesse investigativo.
Para dar um exemplo concludente desse tipo de sujeito é necessário retornar ao ambiente universitário, só que dessa vez eles não serão facilmente encontrados entre alunos, mas sim entre aqueles que exercem o magistério. Exemplos não faltam: é o professor de contabilidade que resolve interromper sua aula para falar que a legalização do aborto é necessária; é a professora de história que, após um discurso sobre justiça social para grupos LGBT, resolve passar um questionário para saber se os alunos são favoráveis a aprovação de leis mais rígidas contra a homofobia; é o palestrante que deveria falar sobre direito romano e acaba divagando sobre a importância das cotas raciais para mitigar a desigualdade social que oprime os pobres pretos desprivilegiados, etc.
É evidente que todos os exemplos acima possuem algo em comum: são pessoas que defendem os lobbies existentes na militância esquerdista atual. Por causa disso o leitor já deve estar imaginando que aqueles que o proferem são militantes do socialismo. Acontece que o presente texto não trata sobre esse tipo distinto de indivíduo que utiliza, conscientemente, uma posição privilegiada que ocupa para fazer proselitismo ideológico. Se assim o fosse, provavelmente, ao decorrer do presente já haveria citado nomes como o da Marilena Chauí, que é “professora” de filosofia da USP.
O tipo específico de professorado ao qual me refiro não são pessoas que possuem militância política alguma, entretanto são aqueles que, por possuírem um conhecimento distinto, se acham detentores de grande sabedoria e, por isso mesmo, agem como proficientes entendedores de quase todos os assuntos possíveis. Essas pessoas lêem os periódicos, assistem a palestras de certos doutores que exercem militância velada, e alguns até mesmo lêem os livros do momento que foram aprovados pelo Ministério da Educação. Tudo isso objetivando, em seguida, regurgitar para os seus despreparados alunos um monte de informações altamente tendenciosas e questionáveis até o último caractere como se fossem verdades irrefragáveis.
Então por que todos os exemplos que citei se referem à militância esquerdista? Simples: Porque no Brasil a mídia, o ambiente escolar desde o maternal até as universidades, os filmes, as novelas e tudo mais são claramente dominados pela pérfida mentalidade socialista. E não é de se estranhar que, em um país onde a oposição ao socialismo seja a sua co-irmã social democracia, isso aconteça. Logo, torna-se natural que o tolo professor acredite, pela repetição extenuativa, que tais lobbies são dogmas intocáveis e que se no mundo existe alguém capaz de contestá-los, essa deve ser uma pessoa que não estudou o suficiente ou que é mal intencionada. Frente a um contestador desse tipo o tolo propagandista se vê plenamente apto para defender aquilo que não entende, dessa forma, cumprindo o seu papel como um grande idiota útil que é.
Para esses tolos que se julgam sábios, eu encerro esse texto deixando um trecho da Bíblia Cristã que encontra-se em Provérbios, capítulo 26, versículos 11 e 12:
“Um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras. 
Tu tens visto um homem que se julga sábio? Há mais a esperar de um tolo do que dele”.

                             
                                 O espantalho se achando inteligente após o Mágico de Oz lhe dar um diploma de universidade. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Porque eu acredito em Deus

Série "Reflexões Pessoais", Nº 25



Uma pergunta que seria tão simples e ao mesmo tempo tão complexa: Porque eu acredito em Deus?

Primeiramente eu divido conceitos de forma bem clara e concisa em minha mente: Fé e Doutrina, Espiritualidade e Religião. Tais conceitos que a primeira vista poderiam ser considerados praticamente sinônimos, pra mim se opõem fortemente. Pra mim a doutrina estraga a fé, e a religião sufoca a espiritualidade.

Tendo em mente que divido claramente os conceitos retromencionados, já adianto que não sou religioso, tampouco, apesar de desnecessário dizer, sigo quaisquer doutrina de forma íntima. 

As pessoas costumam crer verdadeiramente em Deus por duas vias distintas: experiência pessoal/sobrenatural ou pela pura lógica. Desta forma, digo que minha crença em Deus, no Criador, se deu basicamente pela segunda alternativa. 

Nunca de fato pude sentir aquilo que muitos dizem sentir, e por isso cheguei a duvidar. Não poderia ter sido tão tolo.

Basicamente ao se compreender o ser humano como espécime biológico, podemos ter a noção de quão limitadas são nossas ferramentas de percepção do ambiente que nos cerca, da nossa auto-declarada "realidade". Tudo em nós é extremamente limitado, nosso cérebro nos oferece um modelo muito limitado da dita realidade para que possamos viver nossas vidas de acordo com nossos preceitos puramente biológico.

Desta forma lhes pergunto, como então que entenderíamos a lógica do Criador sendo nós mesmos a mera Criatura? Como entender a lógica de Algo que pode estar por trás da criação das próprias leis da física como conhecemos? 

É como se imaginássemos de alguma forma um computador tentando compreender o amor, ou o ódio, simplesmente não dá. O computador é criação nossa.

Não há como a Criatura entender a lógica do Criador, seria-nos muita presunção quiçá entender a sua existência ou não-existência, mesmo porque o próprio conceito de "existência" é algo muito limitado que nos é oferecido pelo nosso humilde cérebro. 

Creio em Deus, embora sou e serei sempre muito limitado para compreendê-lo.

"Somos apenas parte de um todo."





segunda-feira, 5 de junho de 2017

Ser Conservador

Série "Reflexões Pessoais", Nº 24



Ser conservador não é se posicionar no espectro oposto ao da agenda esquerdista, mas sim entender que a realidade complexa é melhor compreendida ao respeitar-se a inteligência que foi acumulada ao decorrer das gerações e que se encontra dispersa no seio da sociedade. Uma das formas de expressão de tal inteligência é, por exemplo, a tradição. 

Quem apenas age de maneira reativa em relação aos despropósitos ideológicos sempre será, no máximo, um subproduto daquilo que despreza.


"A família é a principal célula de resistência ao poder do Estado"