domingo, 4 de janeiro de 2015

Amanhece, e tudo continua igual

Série "Poesias e Devaneios", Nº 15



Algo soa...Cantam os pássaros urbanos, com aquele som estridente, me faz acordar, ao mesmo tempo me fazendo lembrar que nem dormi. Ao mesmo tempo se escuta sons de buzinas e motores. Quando os primeiros raios de luz se misturam à atmosfera amarfanhada, cinza e poluta. 

É melhor se levantar, tentar equilibrar a mente com o corpo doído de uma noite não dormida. Pela janela descorada só se vêem aquelas estruturas imponentes, árvores de pedra, os arranha-céus senhoris, eternos na minha imaginação, de destacam em meio a algo que não sei se é neblina ou conspurcação.

E no canto do quarto, lá está ela, minha escrivaninha, onde estão pilhas de papéis manuscritos, textos e devaneios de uma mente que transborda sentimento além da matéria, onde papel e tinta se fundem em uma estrutura quase-viva de pura afeição. 

Meus papeis, meus escritos, meus devaneios, postados todos em pilhas e mais pilhas, e ao lado descansa uma xícara de café amargo que já esfriou, assim como minha alma.

Meus olhos doem! Não por ter chorado, coisa que nem sei fazer mais. Eles doem pela atmosfera cáustica desse ambiente metropolitano, pela nódoa que circunda por todo canto, nem ao menos há pra onde fugir,

Nessa selva de pedra lá fora que é a cidade, aqui dentro não fica tão diferente, sendo que meu coração compartilha da mesma matéria-prima de que são feitos aquele edifícios augustos e impenetráveis, duros como rocha seca e estéril.

Noutro canto uma pequena estante exibe dois porta-retratos, porém um fato curioso é que eles estão vazios. As fotos que nele eram ostentadas já nem existe mais, foram destruídas, queimadas, rasgadas. As imagens físicas podem até nem existir, mas as que residem dentro das minhas lembranças, ah, essas são impossíveis de serem rasgadas.

E não são "fotos" estáticas, captação estéril de uma fração de um picossegundo, mas sim todo um filme, toda uma vida vivida, onde imagens, sensações, prazeres, cheiros, perfumes, sentimentos, tudo isso está entrelaçado e misturado, guardado bem no fundo do coração de pedra que ostento, e de lá nunca sairá.

A austeridade que demonstro, a frieza que exibo, se faz necessária tão somente pela falta que tudo isso me faz, assim como a luz do sol que mal consegue penetrar nesse ambiente lúgubre que é essa cidade, que exala um cheiro corrosivo de gasolina, tão corrosivo quanto lágrimas que eu já provei um dia, apesar de não provar.

Tudo faz parte, e continuará sendo assim. Talvez Augusto dos Anjos tivesse razão, mas eu ainda não assisti o formidável enterro de minha última quimera.

"Não existe ainda a palavra “saudade” para tudo isso, mas de certa forma é o que eu poderia definir"



Um comentário:

Otavio Silva disse...

Que linda crônica, é raro encontrar alguém, que assim como eu, vê poesia na selva urbana de pedra, gostei muito. Tomei a liberdade de compartilhar na minha página no face https://www.facebook.com/pages/Banzeiro/207035766029726

Estou recomeçando meu blog de poesia do zero, se puder dá uma força lá.
http://banzzeiro.blogspot.com.br/2015/01/escreviver.html

Forte abraço, Otávio M. Silva