segunda-feira, 17 de abril de 2017

Quando o fim chega para um Velho Pescador

Série "Poesias e Devaneios", Nº 39


Uma só metade, sou, sucintamente
Brevemente, serei novo
Logo, inteiro, descano eternamente

As ondas trazem sal
Fúria, amor, tranqüilidade
Ondas lavam sobre mim
Trazem do mar a reciprocidade

Eu não consigo entender
O sol estava tão brilhante
Esses últimos goles, aqui vou estender

Dizem que por quão longe a casa se encontra
O mar é minha terra, meu senhor
Eu encontrei, enfim, meu lugar
Serei a costa por onde a onda adentra

Meu dever já foi lido, liberto
Os gritos já foram silenciados
De onde a água encontra a terra
Na costa onde vejo o mar aberto

Morte passada,
Tempo passado, 
Vamos dormir


Dedico essa pequena poesia às pessoas que a onda já levou, mas que ficarão pra sempre em nossos corações.

V. S. Rezende *1943 † 2017
A. Ribeiro *1937 † 2017


"Tudo é passageiro. E do fim, não se escapa."



sábado, 8 de abril de 2017

Carta: "Tempo é distância"

Série "Cartas Perdidas", Nº 23


Campinas, 7 de agosto de 1998


Não sei ao certo porque lhe escrevo agora, e nem tenho tempo nem paciência mais para tal.

A questão é que de fato senti falta. E escrevo "senti falta" simplesmente, sem me referir objetivamente ao que ou à quem eu sinto de fato falta, mas deixo em aberto por exatamente não saber.

Não sei o que tem em mim que me representa uma saudade ou nostalgia tansa, mas a questão é que, sim, senti falta das cartas tolas que lhe envei um dia já, mas em um tom totalmente diferente.

Te amei demais por meio de palavras, tinta e papel, mas que poderia ter ebulido todos esses sentimentos presos aqui por outros meio, digamos, bem mais tangíveis. Sim, não devo ser tão frio e platônico a fim de falar que amava você de forma pura e te tomava como um anjo puro. Era de fato uma paixão bem mais profana que você possa imaginar, pois eu como um homem carnal te desejava em cada centímetro de pele sua, e poderia ter te devorado em êxtase, te arrancado cada gota de fôlego como uma mulher sendo um vulcão eruptivo. Ah sim, como teria!

Mas é vão falar sobre não-fatos, só devo reforçar que lhe escrevi agora porque quis tentar lembrar disso que existia em mim, e se esvaiu. Meus olhos tem ficado vazio a cada dia, semana, mês, enfim. Tenho me sentido estranho, me sinto esticado, como manteiga espalhada em um grande pedaço de pão, estou fino. Te escrevi por isso, senti falta, e sinto falta, talvez de você mesma, ou talvez daquele fogo, brilho no olhar que eu via no seu, mas que na verdade era eu mesmo. Como já me disseram uma vez, eu vejo em você o meu amor próprio, e amo você como se fosse um reflexo aperfeiçoado meu.

É disso que sinto falta, de fato, sim, ter um reflexo aperfeiçoado meu, eu perdi isso, perdi essa capacidade de ver isso em mim mesmo, mesmo que fatalmente eu tivesse outrora refletido isso em outra pessoa.

Mas isso nem importa muito, o importante é tentar dizer, pois você sumiu, não te vejo, sumiu até de meus sonhos, parece que realmente nem mesmo existiu.

Talvez no fundo eu nunca tenha deixado de te amar, mesmo que ainda ame uma sombra.


"Certas coisas são injustas e intempestivas, enfim! Devo me acostumar com esse fato, ela é desproporcional em muitos pontos."